Sociobiodiversidade é chave para proteger meio ambiente e comunidade em terra indígena
Com projeto desenvolvido junto à comunidade da Terra Indígena Mangueirinha (PR), bióloga mira na gestão de recursos naturais e sobrevivência da cultura frente à devastação ambiental

A partir das narrativas indígenas, pesquisadora analisa como as práticas de gestão se entrelaçam aos ciclos de mudança e ao manejo dos ecossistemas nos últimos 40 anos – Foto: Arquivo pessoal /Ariadne Dall’Acqua Ayres
A Terra Indígena Mangueirinha, no Paraná, é um sistema socioecológico de alta complexidade, onde coexistem realidades culturais diversas. Habitada pelas etnias Kaingang e Guarani, além de populações não indígenas, o território abriga um dos últimos e maiores remanescentes de araucária (Araucaria angustifolia) nativa do mundo. Foi nesse cenário que a bióloga Ariadne Dall’acqua Ayres pesquisou intersecção entre o bem-estar socioeconômico e a conservação ambiental.
Entre os achados, o mais significativo foi a existência de um consenso sobre o futuro: mesmo entre grupos que apresentavam polaridades políticas ou visões divergentes no cotidiano, o desejo por melhoria econômica e bem-estar através da geração de renda era unânime. Esse “cluster econômico” tornou-se um dos principais focos do trabalho, onde a pesquisadora explorou alternativas sustentáveis que já existem no território, mas que precisam de fortalecimento e regulação para se tornarem fontes de renda robustas.
A chave para esse desenvolvimento está na sociobiodiversidade, conceito que Ariadne Dall’acqua Ayres define como elementos da natureza que possuem significado cultural, uso tradicional ou relacional para a comunidade. No Sul do Brasil, as espécies centrais desse sistema são o pinhão (semente da araucária) e a erva-mate, que são a base da alimentação e da cultura local. A pesquisadora colaborou diretamente na estruturação de projetos para buscar financiamento para a cadeia da erva-mate, atendendo a um pedido do cacique local.
A grande vantagem dessas cadeias de valor é que elas permitem o retorno financeiro com a “floresta em pé”, sem a necessidade de derrubada da mata. Isso representa uma alternativa sustentável ao arrendamento de terras e à venda de madeira, atividades de alto impacto ambiental que, embora tragam retorno financeiro imediato, comprometem o futuro do território.
O estudo também joga luz sobre as raízes históricas da degradação na comunidade, apontando que práticas predatórias foram, muitas vezes, impulsionadas pelo próprio Estado brasileiro. Durante a ditadura militar, órgãos como o Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e a ditadura militar mantinham postos militares na região e promoviam o arrendamento de terras e o corte de madeira sem que os indígenas recebessem qualquer remuneração ou compensação pela degradação. Essa herança histórica gerou um sentimento de abandono e uma desvalorização dos serviços ambientais que as comunidades prestam hoje ao proteger recursos vitais, como a água e a biodiversidade, que beneficiam toda a sociedade.
O trabalho deu origem à tese de doutorado Bem-estar socioeconômico e conservação da biodiversidade em uma comunidade indígena paranaense: um caminho a ser construído, com orientação das professoras Fernanda Brando, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, e Cristiana Seixas, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Ciência que escuta
Para conduzir a investigação de maneira ética e colaborativa, sendo uma pesquisadora outsider (não indígena), a bióloga adotou ferramentas da antropologia e da ecologia.
A pesquisa foi estruturada cronologicamente, analisando os últimos 40 anos de transformações no território com o apoio de dados secundários e do sistema MapBiomas para mapear as mudanças no uso da terra e na gestão dos recursos de uso comum.
Um dos pilares do estudo foi a aplicação da metodologia Ethnographic Future Research, utilizada para construir cenários futuros com base nos desejos e temores da comunidade. A pesquisadora realizou oficinas com jovens e entrevistas com adultos das seis aldeias que compõem a terra indígena Mangueirinha, buscando uma representatividade que cobrisse diferentes unidades familiares.
Inicialmente, o plano era realizar um estudo focado estritamente na conservação da biodiversidade e no levantamento de espécies, mas o contato com as lideranças indígenas alterou o rumo do trabalho. “No momento em que visitei a terra indígena, a comunidade expressou a importância do desenvolvimento de estratégias para a questão socioeconômica, pois isso estava muito atrelado com a conservação da floresta”, explica ela. Assim, a tese foi delineada a partir de uma demanda da comunidade.
Durante o período de imersão, ela utilizou a observação participante para compreender o “microcosmo” da comunidade, enfrentando o desafio inicial de ser vista com cautela pelos moradores. A pesquisadora relata ter ouvido questionamentos sobre se sua presença ali servia para proteger as pessoas ou apenas para “olhar para os pinheiros e proteger os macaquinhos”.
“Considero importante reconhecer a honra que é as pessoas me receberem e estarem dispostas a dividir a história delas. No momento que transcrevia as entrevistas eu me emocionava muito, pois percebia que a pessoa se sentiu à vontade para falar comigo sobre esses temas”
Diante da complexidade encontrada, Ariadne Dall’acqua Ayres ressalta que o papel da ciência deve ser o de dar voz a essas demandas e retornar os resultados para a comunidade. A pesquisadora planeja retornar ao território para apresentar os resultados, além de também produzir um livro de memórias do território, registrando toda a história e as perspectivas futuras da terra indígena que foram coletadas ao longo do processo.
A tese estará na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP após publicação de artigo científico em desenvolvimento.
Mais informações: e-mail ariadne.ayres@usp.br, com Ariadne Dall’acqua Ayres